Bom dia, inverno, de Tamara Klink
- Bárbara Viacava

- 7 de jun.
- 2 min de leitura
Atualizado: 30 de jul.
Tamara Klink passou 8 meses sozinha com seu barco congelado no ártico. Sozinha é jeito de simbolizar uma navegação e estadia sem outras humanas a acompanhando, mas teve companhia das raposas margarida, penélope, helena, mickael jackson, teve das focas, do gelo, dos dias que eram só noite, estrelada ou com auroras boreais, teve do sol girando e girando sem nunca sair daquele mesmo céu, teve sua própria companhia e também de seu diário. Tamara faz parecer simples um feito imensamente grandioso. É a primeira mulher registrada a invernar no ártico sozinha. Nós, principalmente nós mulheres, celebramos: temos esse caminho aberto.
Consciente de seus milhares de privilégios, como o de ser uma mulher branca, de classe média alta e filha de pais navegadores, certa vez disse: navego porque posso escolher navegar, enquanto muitas outras não podem. Bom dia, inverno, é mais uma escolha que Tamara pode exercer e a exerceu com muita beleza.
Diferente dos homens navegadores que ela havia lido, teve suas maiores dificuldades não durante a invernagem enquanto estava sozinha, mas durante a preparação para a viagem, ao ter que lidar com homens que faziam os mais diversos comentários machistas que todas nós, mulheres, já sabemos quais são porque se entrelaçam em toda a nossa existência.
Mas além da militância feminista – não sei se preciso dizer que amei mas na dúvida digo – também tem um humor genuíno que achei de uma sutileza sem tamanho. Como na parte que Tamara escuta sons do lado de fora do barco e diz: “Com a maturidade de uma criança de cinco anos, avalio a probabilidade de ser um monstro”.
Ela ainda escreve que sua rotina se parece menos com a dos navegadores dos livros de expedição que havia lido e mais com a da sua avó, que também mora sozinha. Talvez os grandes navegadores tenham inventado histórias demasiado heroicas para rotinas um tanto mais comuns? Ou talvez Tamara Klink tenha feito aquilo que Ursula Le Guin chama de “bolsa de ficção”: coletou suas histórias e passou-as adiante, sem grandes heroísmos, mas com muitas, muitas histórias, coletadas com afeto e vida.
Ficha técnica
Livro: Bom dia, inverno
Autora: Tamara Klink
Editora Companhia das Letras (2026)



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